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O Sofrimento Alheio como Programa de Domingo: Notas Sobre a Paixão Nacional pelos Realities

Pia Bui
O Sofrimento Alheio como Programa de Domingo: Notas Sobre a Paixão Nacional pelos Realities

Photo: Dietmar Rabich, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Existe um momento muito específico na vida de qualquer brasileiro: é quando você percebe que passou quarenta minutos assistindo a um vídeo de dezesseis segundos de uma discussão entre duas pessoas que você não conhece, numa casa em que você nunca esteve, sobre um assunto que não lhe diz respeito — e que você tem opinião formada.

Sejamos honestos: somos, provavelmente, a capital mundial do reality show. Nenhum outro país transforma confinamento em fenômeno de audiência com essa consistência. Nenhum outro país elege, temporada após temporada, vencedores de programa de TV que depois viram apresentadores, cantores, deputados. O gênero aqui não é um formato entre outros. É quase um esporte nacional — com arquibancada, time do coração e baixaria nos comentários.

O Brasil como reality (e o reality como Brasil)

A tese que defendo é simples: o reality funciona tanto aqui porque o Brasil já é, em si, um reality. Somos um país de exposição permanente — a fila do SUS, a novela das nossas instituições, a vida íntima virada do avesso em grupo de família. O confinamento com câmeras 24 horas não é um exotismo importado; é uma versão organizada, com iluminação bonita, de algo que já fazemos todos os dias.

E é por isso que o gênero funciona como espelho social. Nas casas mais vigiadas do país, aparecem — ampliados — os nossos dilemas reais: racismo estrutural em votações que reprovam de forma desproporcional, machismo disfarçado de brincadeira, classe social determinando quem é engraçado e quem é grosseiro. O reality não inventa esses conflitos. Só coloca um telão neles.

A linha fina entre espetáculo e exposição

Agora, o desconforto que não dá para ignorar: em que ponto a diversão vira crueldade? Todo mundo já viu a roda girar — participante entra cheio de sonho, comete um erro de julgamento em câmera lenta, e em 48 horas tem o nome no trending topic sendo destruído por milhões. O sofrimento vira conteúdo, o cancelamento vira entretenimento, e a plateia vai embora de consciência limpa porque "era só um programa".

O problema é que o participante não sai do programa quando o programa acaba. A exposição fica. E aí a pergunta muda de tom: até onde vai a responsabilidade de quem produz, e de quem assiste?

O que dizemos de nós mesmos quando votamos

Há algo quase antropológico no ato de votar num reality. Quando o Brasil inteiro decide quem fica e quem sai, está se dizendo algo sobre si — sobre quem a gente perdoa, quem a gente pune, quem a gente acha divertido e quem a gente acha ameaçador. As votações são as pesquisas de opinião mais sinceras do país, feitas não em gabinete, mas com o coração no impulso.

Nesse sentido, o reality é um documento. Daqui a vinte anos, quem quiser entender o Brasil de hoje vai encontrar aqui material riquíssimo: como amávamos, como odiávamos, do que ríamos.

Sem culpa, mas com olhos abertos

Não vim aqui defender que paremos de assistir. Assistir é legítimo, se divertir é legítimo, torcer é legítimo. Mas talvez valha a pena encarar a tela com um pouquinho mais de consciência: lembrar que ali dentro há gente de verdade, que o jogo tem donos e que a plateia também é parte do espetáculo.

O Brasil vai continuar amando reality — é inútil lutar contra isso, e talvez nem devesse. A questão não é se vamos assistir, mas como. Se rimos, que saibamos o quê. Se julgamos, que meçamos o peso. Porque no fim das contas, quando a câmera aponta para a casa mais vigiada do país, ela acaba revelando a imagem de um país inteiro do lado de fora, assistindo. E o que a gente vê lá dentro depende muito de quem a gente é aqui fora.

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