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Nasceram no Feed, Chegaram ao Estrelato: Os Criadores Digitais Que Estão Dominando o Entretenimento no Brasil

Pia Bui

Tem uma cena que virou quase um ritual nos últimos anos: você abre o TikTok, assiste a um vídeo engraçado de alguém que nunca ouviu falar, ri, compartilha — e seis meses depois essa mesma pessoa está estampando outdoor de série no Netflix ou apresentando quadro no Domingão. Parece rápido demais. Mas, na verdade, não é.

A trajetória dos criadores de conteúdo que migraram do digital para o mainstream do entretenimento brasileiro é mais complexa, mais trabalhosa e muito mais interessante do que o mito da viralização instantânea sugere. Vamos destrinchar isso.

O TikTok Como Vitrine, Não Como Destino

Um erro comum é achar que o TikTok — ou o YouTube, o Instagram, o Kwai — é o ponto de chegada. Para quem está construindo uma carreira de verdade, essas plataformas são o começo da conversa, não o fim.

Criadores como Whindersson Nunes, que começou no YouTube fazendo vídeos de humor com baixíssimo orçamento no interior do Piauí, entenderam isso cedo. A plataforma foi o trampolim, mas o salto foi para shows ao vivo, filmes, projetos musicais e uma presença multiplataforma que vai muito além de qualquer algoritmo.

A geração mais recente aprendeu com esses exemplos. Hoje, criadores que explodem no TikTok já chegam com um plano: usar a visibilidade para construir algo que dure mais do que um ciclo de trends.

Da Tela do Celular para a Tela Grande

O streaming foi o grande acelerador dessa migração. Plataformas como Netflix, Globoplay, Amazon Prime e Star+ perceberam que contratar criadores com audiências consolidadas é um atalho inteligente — você já leva o público junto.

Isso gerou uma leva de produções originais protagonizadas por influenciadores digitais. Nem todas funcionaram. Algumas foram criticadas por parecerem forçadas, como se o carisma do feed não se traduzisse automaticamente para o roteiro. Mas as que acertaram mostraram algo importante: quando o criador tem espaço para ser ele mesmo — e quando a produção entende quem ele é — o resultado pode ser surpreendente.

A série De Volta aos 15, com Maisa Silva no papel principal, é um exemplo de transição bem-sucedida. Maisa foi literalmente criada na TV, mas sua trajetória digital foi fundamental para que o público mais jovem a enxergasse como uma voz contemporânea, não como uma atriz infantil que cresceu.

Lives: O Fenômeno Que Ninguém Esperava

Se tem um formato que explodiu de um jeito que ninguém previu, foi a live. A pandemia empurrou todo mundo para dentro de casa e transformou transmissões ao vivo em shows de arena virtuais. Artistas que já tinham base digital conseguiram monetizar e expandir sua audiência de formas que a indústria tradicional demorou anos para entender.

Alguns criadores de conteúdo fizeram lives que bateram recordes de audiência simultaneamente com artistas consagrados. Isso não passou despercebido para produtoras e gravadoras, que começaram a olhar para esses números com outros olhos.

O modelo da live também mudou o que o público espera de um show: mais interação, mais informalidade, mais acesso ao bastidor. E isso, curiosamente, é exatamente o que os criadores digitais sempre souberam entregar.

Os Desafios Que Ninguém Conta

Mas nem tudo é algoritmo favorável e contrato de streaming. A transição do digital para o entretenimento tradicional tem seus obstáculos, e muitos criadores aprenderam na marra.

O primeiro é a questão da credibilidade. Por muito tempo — e ainda hoje, em certos círculos —, profissionais do audiovisual tradicional olharam para influenciadores com desconfiança. A ideia de que qualquer um pode fazer conteúdo foi usada para desvalorizar o trabalho de quem construiu audiências reais com dedicação diária.

O segundo desafio é a sustentabilidade. A pressão por produção constante nas redes sociais é exaustiva, e vários criadores já falaram publicamente sobre burnout. Quando você adiciona a isso as demandas de um projeto audiovisual profissional, o peso pode ser enorme.

E há ainda o desafio da identidade: até onde vai o criador autêntico e onde começa o personagem construído para uma produção de terceiros? Essa tensão é real e nem sempre tem uma resposta fácil.

Estratégias de Quem Deu Certo

Analisando as trajetórias de quem conseguiu fazer essa transição com sucesso, alguns padrões aparecem.

Primeiro: diversificação desde cedo. Os criadores mais bem-sucedidos não dependem de uma única plataforma ou formato. Eles constroem presença em múltiplos canais e experimentam formatos diferentes antes de se fixar em algo.

Segundo: gestão profissional. Ter uma equipe — mesmo pequena — para cuidar de contratos, parcerias e agenda faz diferença enorme. Os criadores que tentaram fazer tudo sozinhos por tempo demais geralmente pagaram um preço.

Terceiro: autenticidade estratégica. Parece contraditório, mas os melhores criadores sabem exatamente o que é genuíno neles e o que pode ser moldado para diferentes contextos. Eles não vendem a alma para um contrato, mas também não são ingênuos sobre como o mercado funciona.

O Que Isso Significa para o Entretenimento Brasileiro

A ascensão dos criadores digitais está mudando o entretenimento brasileiro de formas profundas. O perfil de quem tem acesso a uma câmera, a uma história e a uma audiência ficou muito mais diverso. Criadores negros, LGBTQIA+, periféricos, do interior — todos encontraram no digital uma porta que a indústria tradicional manteve fechada por décadas.

Isso não significa que a indústria tradicional abriu os braços de vez. Mas significa que ela não tem mais o monopólio da narrativa. E essa mudança, uma vez feita, não volta atrás.

O feed foi o começo. O que vem depois é o que vai definir o entretenimento brasileiro nas próximas décadas.

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